Curitiba possui centenas de construções que ajudam a contar a trajetória da cidade. Somente na região central, 478 imóveis estão registrados como Unidades de Interesse de Preservação, classificação destinada a edificações consideradas relevantes para a memória urbana da capital paranaense. Entre esses imóveis, alguns vêm sendo recuperados por meio de iniciativas privadas que procuram conciliar a conservação de elementos históricos com novas possibilidades de utilização. Dois exemplos recentes são o Palacete Ascânio Miró, no Batel, e a Casa Jaime Reis, no bairro São Francisco. Os trabalhos foram realizados pela L.C. Branco Empreendimentos Imobiliários, empresa que atua na recuperação de imóveis históricos de Curitiba. A proposta dos projetos foi preservar as características arquitetônicas das construções ao mesmo tempo em que os espaços receberam novas funções. Palacete histórico ganha nova finalidade no Batel Localizado no encontro da Rua Comendador Araújo com a Alameda Presidente Taunay, o Palacete Ascânio Miró se destaca em meio às construções contemporâneas do Batel. O imóvel foi projetado em 1897 pelo engenheiro Cândido de Abreu e apresenta elementos característicos da arquitetura eclética, incluindo torres e cúpulas. Ao longo de sua história, a construção recebeu diferentes atividades, entre elas estabelecimentos comerciais, escritórios e espaços destinados a eventos. Durante o processo de recuperação, os responsáveis buscaram conservar os elementos originais da edificação, que possui proteção do Patrimônio Cultural do Paraná. Após a restauração, o palacete passou a abrigar a Casa Paraná Business, vinculada à PUCPR, incorporando uma nova atividade ao espaço sem romper com sua importância histórica. A recuperação também foi apresentada como uma homenagem aos 333 anos de Curitiba. Para Luiz Celso Branco, proprietário da empresa responsável pelo imóvel, a intervenção representa uma responsabilidade que ultrapassa a recuperação física da construção. Segundo ele, a preservação do palacete significa manter parte da memória da capital paranaense e garantir que um dos seus marcos arquitetônicos continue integrado à vida da cidade. Casa Jaime Reis se transforma em espaço cultural No bairro São Francisco, a recuperação de outro imóvel centenário resultou em uma nova relação entre patrimônio e produção cultural. Construída em 1929, a Casa Jaime Reis possui características da arquitetura eclética e está situada na tradicional avenida que leva o mesmo nome. O imóvel fica próximo a pontos importantes do Centro Histórico, como o Palácio Belvedere e as Ruínas de São Francisco. Depois de passar pelo processo de recuperação, a construção passou a receber a Agrupa Cultural, produtora que desenvolve atividades nas áreas de audiovisual, música, teatro e outras manifestações culturais. O espaço já esteve envolvido na produção de mais de dez filmes, além de dezenas de eventos, e acumulou trabalhos com mais de 700 artistas. Para Luiza Gutjahr, responsável pela Agrupa Cultural, a escolha do endereço está relacionada diretamente à identidade do bairro São Francisco, reconhecido pela presença histórica e artística em Curitiba. A proposta, segundo ela, é transformar o imóvel em um ambiente de criação e encontro, permitindo que diferentes projetos culturais sejam desenvolvidos no local e aproximando artistas e público. Preservação aliada à ocupação dos imóveis A recuperação dos dois edifícios evidencia uma estratégia que vem ganhando espaço nas cidades históricas: preservar construções antigas sem necessariamente mantê-las isoladas de novas atividades. Para a L.C. Branco, a conservação desses imóveis precisa estar acompanhada de uma utilização que permita sua permanência na dinâmica urbana. No caso da Casa Jaime Reis, a recuperação buscou devolver à construção uma função ligada à própria vocação cultural do bairro. Já o Palacete Ascânio Miró passou a receber uma atividade empresarial e educacional, mantendo seus elementos arquitetônicos preservados. A iniciativa demonstra como a restauração pode contribuir não apenas para conservar características arquitetônicas, mas também para reinserir imóveis históricos na rotina da população. Em uma cidade marcada pela transformação urbana e pelo crescimento de novas edificações, a recuperação desses espaços representa uma forma de manter referências materiais de diferentes períodos da história de Curitiba.
